Ao ver o goleiro Hugo Souza escrever com as próprias mãos a história da final do Campeonato Paulista-25 com uma defesa espetacular no pênalti batido no canto direito por Raphael Veiga, na hora eu pensei em Barbosa. Sim, ele mesmo, Moacyr Barbosa Nascimento, o goleiro da seleção brasileira da Copa de 50, condenado a viver o resto de seus dias como o vilão pela derrota para o Uruguai, na fatídica tarde da tragédia verde-amarela que entrou para a história do futebol como o Maracanazo.

Seja um parceiro do The Football

No filme imaginário que me levou ao passado, aquele frame congelado do herói corintiano, carregado nos ombros pelos torcedores e abraçado por todos os jogadores em forma de gratidão pela defesa e pelo título, simbolizava a redenção de todos os goleiros que vivem sob o fio da navalha, esgueirando-se entre a glória e o fracasso, o heroísmo e a vilania, a depender dos caprichos da bola.

Hugo muda frase do futebol na cobrança de pênalti: não é mais o goleiro que não sai na foto, é o batedor / Corinthians

Mais do que isso, a sublimação do capitão corintiano simbolizava uma espécie de reparação histórica devida a Barbosa, culpado pelo gol de Gighia e julgado publicamente sem dó nem piedade com o peso da agravante de ser negro.

Barbosa foi ‘condenado’

Um dia, muitos anos depois da final da Copa, eu entrevistei Barbosa – ele já perto do fim da vida, morando numa casa humilde na Praia Grande. Entre suas doloridas lembranças do passado, que rondavam sua mente como um fantasma nunca exorcizado, podia-se sentir o peso da mágoa do seu sofrimento num desabafo pungente “No Brasil, a pena máxima para qualquer criminoso é 30 anos; só eu fui condenado à prisão perpétua…”

Há um fio condutor que liga os pontos entre Hugo Souza e Barbosa, além do simples fato de ambos serem goleiros e negros. Os dois passaram por um momento de provação na carreira, mais do que dificuldades normais na vida de qualquer menino que um dia se lança na aventura de ser jogador de futebol profissional.

SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin
Threads
Tik Tok

Barbosa ficou marcado pela falha no gol do uruguaio carrasco do Brasil. Hugo Souza teve que sair pela porta dos fundos do Flamengo, seu clube de criação, depois que um erro numa saída de bola num jogo contra o São Paulo que custou a eliminação do Rubro-Negro na semifinal da Copa do Brasil de 2020.

Hugo deixou o Fla após perder a confiança da diretoria e da torcida para dar a volta por cima no Corinthians / Corinthians

Com 20 anos, Neneca – era assim que ele era chamado na Gávea – perdeu a condição de titular que havia ganho do técnico Domenec Torrent e precisou abandonar o clube, desacreditado e humilhado.

Gratidão a Fabinho Soldado

A diferença entre Neneca e Barbosa é que o hoje herói corintiano teve uma chance de dar a volta por cima e reescrever sua história. Emprestado ao modesto Chaves de Portugal, Hugo Souza iniciou a reconstrução de sua carreira e lá foi redescoberto por Fabinho Soldado, que já o conhecia dos tempos de Flamengo. A missão que o dirigente lhe confiava, no entanto, não era fácil: substituir o goleiro Cássio, um mito corintiano.

Este clube, depois de seis anos, volta a ser campeão. O Corinthians merece estar sendo campeão mais e mais vezes. Que isso volte a ser rotina, é isso que a gente vai buscar. E, hoje, Deus me agraciou com o pênalti. Para um goleiro, nada melhor do que pegar pênalti na final, garantindo o título. Nem nos meus melhores sonhos, eu sonhava com isso.
HUGO SOUZA

Se não desse conta desse pesado fardo, ao menos que conseguisse fazer a Fiel esquecer de Carlos Miguel, o antigo reserva que parecia talhado para seguir a trilha do gigante do Parque São Jorge, mas foi seduzido pelo dinheiro da Premier League e abandonou o barco.

Eis que nesse momento nem Hugo Souza, aos 26 anos, nem o Corinthians, há cinco temporadas sem ganhar nada, tinham outra opção. Era acertar ou acertar. De lá para cá, foram 50 jogos, 49 gols sofridos, 164 defesas (sendo 81 em chutes dentro da área), 19 jogos sem sofrer gol e uma marca impressionante: 7 pênaltis defendidos em 20.

Goleiro Hugo Souza segura a taça de campeão paulista, sua primeira com a camisa do Corinthians / Corinthians

O da epopeia desta quinta-feira, em Itaquera, foi sem dúvida o mais importante deles.
Os números são mesmo impressionantes, mas não é deles que devemos falar para ressaltar a importância de Hugo Souza para o momento corintiano.

Time do Povo

O que fez dele um ídolo repentino da torcida e o capitão do time dentro de campo é a forma como ele se identificou com o clube, com a história, com o DNA e com todos os desafios inerentes a jogar no Time do Povo. Jogar no Corinthians é entender o Corinthians como algo único, muitas vezes inexplicável, impossível para os que não estão preparados para a missão.

Hugo Souza, no entanto, nasceu para jogar no Corinthians. Sua história de vida de menino pobre sonhador, sua trajetória errante dentro e fora de campo, seu sonho de melhorar a vida da família, seu compromisso de honrar a memória do pai, que morreu de infarto em 2020, fazem dele mais um do bando de loucos.

Isso explica por que a torcida confia tanto nele, a ponto de chegar a torcer para que alguns confrontos pelo menos cheguem até a decisão por pênaltis porque ali ele garante. A Fiel se sente representada em campo por Hugo Souza. É como se um deles estivesse ali, de chuteira e luvas, pronto para dar a vida pelo time do coração.

Presente de Deus para a Fiel

Hugo encarna o espírito corintiano e a torcida reconhece esse valor. É como diz o refrão que eles cantam na arquibancada: “É sangue nos óio, é tapa na orelha, é o jogo da vida, o Corinthians não é brincadeira…”

Diante do momento glorioso vivido pelo filho, a mãe de Hugo Souza chorou de emoção nesta sexta-feira, num depoimento ao programa Os Donos da Bola, apresentado pelo craque Neto, na TV Bandeirantes. “Esse menino é um presente de Deus para mim!”, disse ela. Dona Lena pode ter certeza de que Hugo é um presente para toda a nação corintiana!

Publicidade

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui