Caro Luighi,

Assisti pelas redes sociais, e revi diversas vezes, o vídeo de sua entrevista do pós-jogo do seu Palmeiras na Libertadores da América Sub-20. Ali, misturados às suas lágrimas, havia tanta emoção, tanta verdade, tanto sentimento, tanto sofrimento que minha vontade era poder estar ao seu lado para te dar um abraço.

O racismo é um desvio de caráter

Um abraço que deixasse registrado que eu estou do teu lado, solidário à sua dor e signatário de seu manifesto contra o mais abjeto dos crimes da sociedade contemporânea – o racismo, aquele desvio de caráter próprio das pessoas que veem valor na cor da pele dos seus semelhantes.

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Primeiramente, sei que corro o risco de parecer piegas com essa carta aberta. Te juro que não tenho com ela a menor intenção de caçar likes na internet. Já sou um veterano trilhando meus últimos passos no jornalismo e não tenho mais apego à luta pela audiência, tampouco por glórias pessoais. Mas ainda me sinto na obrigação de estar no front, disposto a combater o bom combate, especialmente contra os supremacistas e os preconceituosos de plantão. Eles estão por aí, em toda parte, sem trégua.

Luighi, em foto preto e branco, chora ao comentar sobre os insultos racistas de que foi vítima no Paraguai / Reprodução

Com a idade que você tem (apenas 18 anos!!!) eu poderia ser seu pai – talvez seu avô até. Só fiz essa relação para dizer que, com 65 anos de idade, poucas vezes eu vi um garoto como você portar-se com a coragem de um homem maduro, altivo diante de uma situação de hostilidade.

Veja o vídeo de Luighi

Sua lágrima, que poderia ser lida como uma expressão da fragilidade humana, para mim escorreu como uma lava de um vulcão provocado pela ignomínia que os torcedores paraguaios lhe quiseram impor. A indignação estava patente nos seus olhos.

Você chorou na TV, mas em nenhum momento você foi fraco. Muito pelo contrário, Luighi. Você se comportou como um gigante, atingido naquilo que é lhe mais caro – sua honra, seu berço, sua história e o DNA das suas origens. Toda voz que se levanta contra o racismo é um grito de resistência. Imagino o quão seja muito mais difícil para você fazer isso do que para Vini Júnior…

Jornalismo de mentira

Com sua fala e sua incredulidade diante de uma pergunta desconectada da realidade, você também deu um tapa na cara do jornalismo de mentirinha que se faz na televisão. Como homem branco, não tenho lugar de fala para medir sua dor e a dimensão do seu protesto diante da câmera naquele final de jogo.

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Mas, como jornalista profissional com 47 anos de carreira, posso falar pela aula de jornalismo que você nos deu naquela entrevista.

Palmeiras promete ir até o fim para tentar banir o Cerro Porteño da Libertadores Sub-20 / Palmeiras

Depois do que se viu em campo, com torcedores cuspindo nos meninos negros do Palmeiras e imitando macacos (um deles com o filho no cangote), não havia outra pergunta a ser feita ao final da partida que não tivesse essa barbárie como pauta. Mas o jornalista escalado para a pergunta no canal oficial da Conmebol pareceu ignorar o fato.

Certamente não por cegueira, mas por cumprir um protocolo imposto pela transmissão oficial que impede que se faça jornalismo de verdade nessas entrevistas protocolares.

O jornalismo deve desculpas a Luighi

Essas coisas me dão vergonha, me desencantam da profissão que escolhi para criar meus filhos. Em nome de todos os jornalistas que têm mais respeito pela profissão, eu te peço desculpas.

Ainda bem que você, só um menino de 18 anos, acuado, não se amedrontou. E diante do microfone aberto teve a coragem de afrontar a pergunta sem propósito, para respondê-la com um dos mais verdadeiros e emblemáticos depoimentos em favor da luta contra o racismo cultural impregnado no futebol mundial – e muito presente no futebol sul-americano, onde os brasileiros são as maiores vítimas dessa intolerância racial.

Imagina sofrer isso no Paraguai – justamente uma das nações latino-americanas que mais sofrem com o preconceito, com as injúrias e com todas as vicissitudes que acompanham o pacote da pobreza reservado aos cidadãos menos favorecidos.

Solidariedade dos colegas

Minha solidariedade a você nesse momento tem peso quase zero nessa luta. Seria ótimo se seus colegas de profissão, que há duas semanas se juntaram num movimento contra o gramado sintético, percebessem que sua luta é muito mais importante e precisa muito mais do apoio deles, vozes que são ouvidas.

Portanto, seria ótimo também que as entidades que regulam o futebol no mundo parassem de se manifestar através de notas oficiais e se posicionassem de verdade para combater e punir os atos de racismo. Com nome, sobrenome e endereço dos criminosos, que devem ser julgados e condenados a cumprir pena na cadeia.

Simplesmente porque racismo não se trata da preferência pela cor da pele de A ou B, trata-se de crime previsto no código penal!

Não sei você, Luighi, mas eu, com 65 anos de idade e mais de quatro décadas de jornalismo, já estou farto das notas oficiais, dos posicionamentos de oportunidade e do blefe das autoridades constituídas, que fazem alarde num dia e silenciam no outro, legitimando malfeitos de toda ordem. Essa gente estimula o caos porque dele se alimenta.

Chega! Não dá mais para normalizar atos racistas como o que te feriu, meu caro Luighi! Obrigado pela coragem de se insurgir contra os racistas e contra aqueles que fingem não ver o quanto os racistas são parte significativa do lixo da humanidade.

Quem sabe um dia a gente se encontre pelos campos da vida. Espero que quando isso acontecer, você aceite o meu abraço. Fica em paz, irmão!

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