“Ou joga por amor, ou joga por terror”. Esta é uma das exortações mais condenáveis entre os conhecidos gritos de guerra das torcidas uniformizadas de todo o país, pois está inserida no contexto da apologia da violência característica desses grupos organizados. Não se sabe exatamente de quem é a autoria e para quem ela foi endereçada pela primeira vez.

Mas não há a menor dúvida de que ela está aí de novo presente como o pano de fundo da tensa semana que o Corinthians terá pela frente.

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Acabou a lua-de-mel dos torcedores com o time. Aquela fase idílica, em que tudo acabava na simbiose de um poropopó coletivo na arquibancada e no gramado, já é coisa do passado. O presente, determinado pelo vexame de Guayaquil, é de cobrança, pressão, protestos, críticas e ameaças.

Corinthians vai ter duas decisões dentro da Neo Química Arena: contra o Santos e diante do Barcelona / Corinthians

O time enfrenta o Santos, domingo, pelas semifinais do Paulistão, e o Barcelona, na quarta-feira, no jogo de volta do mata-mata da pré-Libertadores. Em ambos, é proibido perder.

Atrás de um milagre

No duelo sul-americano, o buraco é mais embaixo, porque não basta ganhar. É preciso vencer por pelo menos três gols de diferença para devolver o placar da ida e ao menos levar a decisão da vaga para os pênaltis. A vaga direta só será obtida no caso de um milagre que permita uma vitória por quatro gols de vantagem.

Assim está posto o desafio corintiano. Ou o clube experimenta a superação com dois resultados positivos ou, já em março, decreta a frustração de uma temporada que parecia começar de forma animadora, mas que já estará transformada num inferno, num vazio de perspectivas para um tempo melhor, no rastro de anos e anos de maus resultados dentro de campo e escândalos fora dele.

Na prática, isso é puro suco de Corinthians. Afinal, o clube está sempre tangenciando a alegria e a dor, o amor e o ódio, o possível e o improvável, a vilania e o heroísmo. É essa gangorra que faz do Corinthians um lugar diferente.

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A torcida já mandou seu recado, em notas oficiais de organizadas e nas muitas postagens nas redes sociais. Exige uma resposta ao vexame do Equador. Resposta essa que passa por uma mudança de atitude dos jogadores dentro de campo, acusados, com certa razão, de uma atuação sem brio, sem competitividade, sem coragem para atacar o adversário, sem sentir na pele o que é um jogo de Libertadores.

Ramón Díaz e Emiliano estão com os cargos ameaçados depois de um jogo no Equador em que nada deu certo / Corinthians

O Corinthians transfigurado pela mudança do sistema tático inventada por Ramón Díaz em cima da hora foi, para além de todos os erros táticos e técnicos, um time sem alma. E isso é inegociável no DNA corintiano.

Camisas manchadas de sangue

O time pode até perder, mas tem que deixar a última gota de suor no campo, levar o coração no bico da chuteira, dar a vida dentro do gramado. Camisas manchadas de sangue também são benvindas no relicário das conquistas memoráveis do time do povo.

Chegou a hora da verdade

Muita gente defende uma medida mais drástica já na véspera dos dois confrontos: a demissão do técnico Ramón Díaz e seu filho Emiliano. Argumenta-se em favor da ideia da degola que a dupla argentina não conseguiu dar padrão tático ao Corinthians em quase um ano de trabalho.

Pesa também o recital de lamúrias, em ritmo de tango argentino, apresentadas ao final das partidas nas entrevistas coletivas. Sempre tem uma desculpa para justificar o que não dá certo. Ora é o calendário, ora é o cansaço, ora é o início de temporada, ora é a falta de tempo para treinar. Para a torcida já deu. Não há mais escusas que colem. Chega de testes e de indefinições táticas. É hora de o Corinthians mostrar a sua cara.

Nesse clima de caça às bruxas, a torcida ignora o fato de que a equipe só sofreu duas derrotas nos últimos 27 jogos – no que, por outro lado, se apega a família Díaz em defesa do seu trabalho.

Jogadores vão precisar honrar a camisa do Corinthians com sangue, suor e lágrimas nos próximos dois jogos / Corinthians

Nessas horas de aflição, o retrospecto não tem o menor valor. Tanto não tem que a torcida ainda acredita numa classificação heroica na Libertadores, a despeito de o retrospecto ser cruel com a história corintiana no torneio sul-americano.

Retrospecto ruim

Para seguir vivo, o Corinthians vai precisar de uma virada que nunca conseguiu na Libertadores. Em 18 participações, o Timão só levou a melhor em um dos 13 mata-matas nos quais perdeu o jogo de ida.

A missão de reverter o placar desfavorável só aconteceu em 2000, diante do Rosario Central, quando perdeu por 3 a 2 fora e ganhou em casa pelo mesmo placar, classificando-se nos pênaltis. Ainda há esperança… seja ela na base do amor ou do terror.

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