O futebol brasileiro precisa repensar as regras que têm em relação à presença das torcidas nos estádios. Há muitas restrições para as manifestações do torcedor. Em São Paulo, por exemplo, não há torcida dos dois times quando esses times são rivais. Desde 2016, os clássicos recebem apenas um tipo de bandeira nas arenas, a bandeira do mandante. Não há nada mais sem pé e sem cabeça do que esse tipo de tratamento num jogo de futebol, onde se pressupõe no mundo inteiro ver torcedores dos dois lados.
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O futebol paulista, apoiado pela Federação Paulista, Polícia Militar e Ministério Público, sofre com esse tipo de restrição. As entidades esportivas e os órgãos de governo se valem de argumentos contra a violência. Juntos, eles zelam pela segurança no futebol.

Nesta semana, decidiu-se por novas regras e proibições. As torcidas uniformizadas do Corinthians, são seis ao todo, não podem mais entrar nos estádios trajando qualquer adereço de suas facções. Os torcedores continuam liberados, mas as bandeiras e as camisas não. A Polícia Militar proibiu fogos de artifício, sinalizadores e bombas. Mas tudo isso já estava proibido desde 2013. As revistas são malfeitas.
Sinalizadores nos estádios
Há duas situações para a gente repensar. Uma delas diz respeito aos sinalizadores usados pelos torcedores do Corinthians na partida final do Campeonato Estadual contra o Palmeiras. Isso aconteceu dentro da Neo Química Arena. Só havia torcedores corintianos no estádio. A festa foi bonita do começo ao fim daquele jogo. Mas no final teve a confusão dos sinalizadores e das bombas atiradas no gramado, com as quais ninguém concorda.
Eu também não concordo com as bombas, mas com os sinalizadores talvez fosse o caso de a gente repensar o seu uso. Esses sinalizadores, vale ressaltar, não são os mesmos que atingiram aquele garoto no jogo do Corinthians com o San José pela Libertadores na cidade de Oruro, anos atrás, inclusive com a morte de Kevin Espada, um garoto de 14 anos atingido acidentalmente por um desses objetos. São sinalizadores diferentes.
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Os adereços que os corintianos levaram ao estádio na final contra o Palmeiras fazem apenas fumaça e luzes. Eles não são sinalizadores que podem ferir pessoas.
Há outros caminhos além da proibição
Desse ponto de vista, talvez o adereço pudesse ser repensado para algumas partidas, como finais de campeonatos. A discussão que quero abrir aqui diz muito mais respeito à festa da torcida do que a qualquer tipo de adereço que o torcedor possa levar para dentro de uma arena. Isso precisa ficar claro. Refiro-me aos sinalizadores porque eles foram usados e vêm sendo usados com frequência nas partidas da Neo Química Arena. O problema não é o adereço, mas o uso que se faz dele. O caminho não é proibir, é educar e punir, se for o caso.

Talvez uma limitação de sinalizadores pudesse ser liberada até para que a fumaça não tome conta do campo, como pode acontecer, e o juiz precise paralisar o jogo. O problema dos sinalizadores é esse. Eles não machucam ninguém, não são atirados para dentro do gramado e fazem da festa um momento lindo.
Os bandeirões
O torcedor brasileiro não pode levar mais nada para as arenas, nem mesmo aquelas bandeiras de mastros gigantescos, que caracterizaram o futebol dos anos 1980 e 1990. Era muito bonito ver as festas das torcidas divididas com suas bandeiras tremulando antes, durante e depois das partidas. Mas os mastros desses bandeirões começaram a ser usados nas brigas entre torcedores. Decidiu-se, então, acabar com eles. Tentaram salvar a árvore cortando sua raiz.
Mas e se cada setor do estádio tivesse um lugar separado para que torcedores pudessem levar os seus bandeirões e fazer algum tipo de festa durante os jogos, sem machucar ninguém e distante de torcedores rivais, com compromissos e responsabilidade?

Digo isso somente para mostrar que há caminhos a serem tomados que não a simples decisão de acabar com tudo, de proibir tudo, de mudar o que sempre foi o futebol brasileiro nos estádios. Há vários outros adereços proibidos pela PM pensados para evitar brigas e evitar que esses instrumentos possam se tornar objetos de briga.
Estão matando o futebol
Entendo que essas decisões estão matando o futebol. E também que elas são as mais fáceis de se tomar. Estão jogando fora a água suja do banho da criança com a criança junto.
O torcedor está infeliz. Para os casos de brigas, a lei. Prisão, julgamento e condenação. Meu ponto é a festa do torcedor no futebol. Já passou da hora de trocar os vetos pelos compromissos. Vou dar um exemplo: todos esses torcedores que não “podem se cruzar” nos estádios estão no carnaval paulista, liderando escolas de sambas e vivendo o samba lado a lado. Não se tem notícia de mortes na festa popular. Ora, então é hipocrisia as proibições no futebol. A sociedade precisa ter novos acordos sociais.
Tirem as bombas, prendam os arruaceiros e abram caminho para as festas no futebol. Responsabilizem o CPF e o CNPJ. Chamem os torcedores de bem para participar. Volto a frisar, não concordo, não aceito e não admito nada que seja feito ou que sirva para brigas ou para machucar alguém dentro de uma partida de futebol. Esses caras que fazem isso devem ser presos e banidos. Mas há outros caminhos que não seja a proibição de tudo.