Desde que a conquista da Libertadores passou a ser obsessão para dez entre dez clubes brasileiros, criou-se um senso comum de que é preciso aprender a jogar essa competição para atingir a glória eterna.

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Não basta ter o melhor elenco, o time mais entrosado, os jogadores mais experientes, os técnicos mais vencedores, as maiores torcidas, os melhores campos… Nada disso tem valor se o clube não entender que o principal torneio sul-americano tem peculiaridades dentro e fora de campo que vão além dessas coisas que são mensuráveis.

A julgar pelos seis últimos campeões, todos brasileiros, podemos correr o risco de achar que agora somos os donos da América, os imbatíveis, e que, finalmente, aprendemos como se joga e como se ganha a Liberta. Mas não é bem assim.

Nas últimas seis ediçoes da Libertadores, só deu clube brasileiro festejando o título da Gloria Eterna / Conmebol

Talvez abrindo exceção para no máximo três clubes – Flamengo, Palmeiras e São Paulo –, o que se pode constatar é que a maioria das equipes brasileiras ainda não internalizou a cultura que se exige para essa missão.

Aliás, a primeira rodada da edição deste ano mostra o grau de dificuldade que alguns times brasileiros tiveram contra equipes bem menos capacitadas técnica e economicamente. Até mesmo Flamengo e Palmeiras, duas das nossas principais potências, tiveram muitas dificuldades para vencer a partida de estreia contra times bem inferiores.

O Mengão sofreu para fazer 1 a 0 diante do Deportivo Táchira, na Venezuela. O Verdão passou por dois sustos até confirmar os 3 a 2, com gol no último minuto, diante do Sporting Cristal, no Peru.

Resultado acima de desempenho

Menos mal que nesse conceito de que é preciso aprender a disputar a Libertadores, ganhar é sempre muito mais importante do que jogar bem. Pelo formato do torneio e pelas dificuldades colaterais de jogos em cidades muito distantes, em altitudes desumanas, em ambientes hostis, em situações em que é nítido o favorecimento das arbitragens para os times da casa, resultado está sempre acima de desempenho.

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Essa talvez seja a primeira lição que todos devem aprender. Inclusive os torcedores, que às vezes ignoram o valor do 1 a 0 fora de casa contra um time desconhecido e ficam cobrando por um futebol mais vistoso. Na Libertadores, todo jogo é uma decisão. E decisão não se joga, se ganha!

São Paulo foi o primeiro time brasileiro a festejar o tricampeonato da Libertadores da América / SPFC

Num passado não muito distante, o clima de guerra já foi pior. Hoje, na era do VAR e dos jogos transmitidos em várias plataformas, a coisa melhorou em termos de violência dentro e fora de campo, pressão nos bastidores e ameaças nas arquibancadas.

Libertadores ainda é guerra

Mesmo assim, é preciso considerar que a Libertadores é uma guerra, na qual cada um usa as armas que têm. Nesse aspecto, a geopolítica também tem peso no entendimento do clima bélico. O Brasil é o único país do continente que não fala espanhol e é visto como um estranho no ninho de Simón Bolívar, José de San Martín e Bernardo O’Higgins.

É na esteira desse divisionismo, inclusive, que prospera o racismo, do qual os brasileiros negros são vítimas históricas e intermináveis. Nessa conjuntura, os times brasileiros precisam lidar com preocupações que acabam interferindo até na forma de jogar.

Lidar com arbitragem

A arbitragem é um capítulo à parte. Precisamos aprender a lidar com a diferença do protocolo das arbitragens sul-americanas em relação ao padrão adotado no Brasil. Nos jogos da Libertadores o nível de contato físico permitido é muito acima do que se permite no Brasil. Em muitas das vezes, o juiz deixa o lance seguir ao extremo da disputa e nossos jogadores ficam esperando a falta que não é marcada.

Também não adianta aquele teatro todo nas divididas em que sobra uma mão aqui, outra acolá. Se não houver agressão deliberada, o árbitro vai deixar o jogo correr.

O jeito sul-americano da arbitragem incomoda e irrita demais os jogadores brasileiros, que acabam entrando pilhados no campo. Nervosismo que interfere diretamente no estado emocional dos atletas, e, por óbvio, em sua performance técnica.

Árbitros da Libertadores deixam o jogo seguir, não marcam qualquer falta nem dão muito tempo extra / Conmebol

Ainda sobre arbitragem é importante destacar que, se não são rigorosos na marcação de faltas, os apitadores sul-americanos são permissivos e coniventes com práticas de antijogo, especialmente quando elas são utilizadas por times da casa.

Eles ignoram a cera dos goleiros, não punem simulações de contusões que paralisam a partida, não se incomodam com o tempo perdido em cobranças de faltas, escanteios, tiros de meta e até laterais. Fora que não têm nenhum compromisso com a justiça na hora de acrescer o tempo de jogo roubado pelas paralisações. O protocolo é dois minutos no primeiro tempo e três minutos na etapa final, aconteça o que acontecer em campo.

Times mexidos pelo calendário

Por fim, os clubes brasileiros também precisam se adaptar aos estragos provocados pelo calendário do futebol local, que é cruel com os atletas e treinadores. Com tantas partidas nos campeonatos nacionais, a maioria dos clubes que disputam também os torneios sul-americanos é obrigada a mesclar o elenco com evidentes prejuízos numa ou noutra competição.

Toda semana o técnico tem de quebrar a cabeça para montar um time diferente, uma estratégia diferente, para um torneio diferente.

Jogadores não são máquinas e não têm suportado o ritmo de tantas partidas em tão pouco tempo. E quando o revezamento é necessário aparecem os desequilíbrios internos de cada elenco. É quase impossível manter o padrão de titulares e reservas. Em alguns casos, jogadores de primeira grandeza nem sequer têm substitutos à altura.

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