O cambismo é uma praga endêmica no Brasil e deve ser herança genética da atividade do escambo, através da qual colonizadores portugueses trocavam espelhos por riquezas naturais da terra recém-descoberta com os indígenas que aqui viviam, em 1500, ingenuamente presos a um mundo idilicamente selvagem – e puro, sem maldade.
Mais de 520 anos depois, no entanto, a ideia de uma relação comercial centrada no oportunismo persiste no País, à margem da lei. Desde sempre, cambistas comercializam ingressos para shows, espetáculos, jogos de futebol e eventos de toda ordem sem nem sequer serem incomodados pelas autoridades.

Parece existir entre eles, atravessadores e fiscalizadores, um acordo tácito de conveniência, o que permite que a atividade se desenvolva abertamente na porta dos estádios brasileiros. Só não vê quem não quer.
Esquema é feito dentro do clube
Daí a grande surpresa de só agora a diretoria do Corinthians determinar a instalação de um processo administrativo interno para combater o cambismo nos jogos do clube na Neo Química Arena. Depois de anos e anos de permissividade, a cartolagem alvinegra descobriu que tem gente levando vantagens escusas na comercialização de ingressos cuja receita deveria ir para os cofres do clube. O clube vai abrir a caixa preta dos ingressos na Neo Química Arena.
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Assim, na quarta-feira, dia 19, um comunicado oficial do clube anunciou a criação da “Operação Ingresso Legal”, que, segundo a nota, é uma ação estratégica para combater a atuação de cambistas tanto no clube quanto no programa de sócio Fiel Torcedor, que funciona em canais digitais da internet.
A operação inclui a promessa de ações rígidas e sistemáticas para os logins ativos que fazem a emissão de ingressos e credenciais em departamentos internos do Corinthians. Trocando em miúdos, o Corinthians se deu conta de que tem ingresso sendo comercializado num mercado paralelo com sérios prejuízos à instituição.

Demorou. O assunto ganhou notoriedade quando um ex-funcionário do clube, demitido recentemente, jogou luz sobre os ilícitos realizados com regularidade nessa área.
As denúncias indicam que quase a metade da carga de ingressos disponibilizada para a venda na plataforma do Fiel Torcedor acaba sendo desviada para vendas superfaturadas. Isso ocorre fora do ambiente de comércio legal dos bilhetes.
Ingressos de R$ 30 a R$ 600
Funciona mais ou menos assim. Alguém ligado ao clube, como conselheiros e funcionários, por exemplo, retira ingressos e depois repassa para os cambistas, que revendem por valores até 20 vezes superiores. O esquema é tão vil que os ingressos para a final do Paulistão contra o Palmeiras, dia 27, nem estão à venda nos canais regulares, mas já estão sendo negociados no mercado paralelo a preços que variam de R$ 600 a R$ 1.500. Ingressos de R$ 30 vendidos a R$ 600!!!
Por óbvio, quem anuncia esses bilhetes antes mesmo de eles existirem na plataforma oficial de vendas sabe que os ingressos acabarão chegando até suas mãos no tempo certo. O esquema nunca falha.
Antes tarde do que nunca, a diretoria se mexeu e prometeu providências, depois da gritaria e das tantas evidências demonstradas. Até porque não podia se eximir de um processo que já virou até caso policial. Há um inquérito em curso para investigar os descaminhos dos ingressos dos jogos do Corinthians em Itaquera.
Agora é preciso que as autoridades mergulhem fundo nesse assunto e desmontem o esquema, que certamente está replicado em outros clubes e outros Estados. Passou da hora de um combate efetivo a essa prática cruel de mercado, onde prevalece a esperteza.
Manto da impunidade
Há uma esperança de que a obrigatoriedade da identificação facial em todos os estádios brasileiros, a ser legalmente exigida a partir do meio do ano, acabe com o problema. Assim, o comprador do ingresso terá de ter seu rosto checado na catraca no dia da partida.
Mas nem isso é garantia de que o mercado paralelo será minado. Daí a importância de, o quanto antes, identificar e punir as pessoas que agem na clandestinidade, protegidos pelo manto da impunidade.