Permitam-me iniciar este post reproduzindo o lead de uma reportagem assinada pela jornalista Carol Knoploch e publicada no jornal O Globo.
“Agora será assim: se sinalizadores ou fogos de artifício forem usados em jogos organizados pela Federação Paulista de Futebol, o árbitro terá que paralisar a partida. A medida rigorosa, cujo objetivo é coibir estes artefatos nos estádios em São Paulo, foi divulgada nesta quarta-feira pelo presidente da entidade, Marco Polo del Nero, que acumula ainda os cargos de vice-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e integra o Comitê Executivo da Conmebol, organizadora da Copa Libertadores. Segundo ele, as punições serão exemplares.”
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Parece sério, mas é uma piada. Afinal, a data de publicação desta reportagem é 27 de fevereiro de 2013. Isso mesmo, fevereiro de 2013!

Mais de uma década depois, a Polícia Militar do Estado de São Paulo informou nesta terça-feira, dia 1, que a torcida do Corinthians “está proibida” de entrar com sinalizadores na Neo Química Arena. A medida deveria entrar em vigor imediatamente e valer já para o jogo desta quarta-feira, dia 2, contra o Huracán, na estreia das duas equipes pela Copa Sul-Americana-2025.
Proibiram o que já é proibido
Chega a ser risível o anúncio de proibir o que já é proibido. Ainda que o posicionamento da PM seja mais abrangente e inclua, entre as proibições, itens que hoje são permitidos legalmente, como bandeiras, faixas e instrumentos musicais.
No rastro dessa medida, a Federação Paulista de Futebol também determinou a proibição da entrada de torcedores identificados com camisas, faixas e bandeiras ligadas a seis torcidas organizadas do Corinthians (Gaviões da Fiel, Camisa 12, Fiel Macabra, Pavilhão 9, Estopim da Fiel e Coringão Chopp) em estádios brasileiros até o fim de 2025.
A punição é baseada em um ofício do Jecrim (Juizado Especial Criminal), expedido pelo Ministério Público, depois de incidentes na final do Campeonato Paulista.
Sinalizadores em Itaquera
Para quem não lembra, no jogo de volta contra o Palmeiras, a Fiel aproveitou que o clima da decisão estava incendiado pela rivalidade histórica entre os clubes e tocou fogo em centenas de sinalizadores de fumaça lá pelos 35 minutos do segundo tempo. E, a partir daí, não teve mais jogo.

Numa incrível conexão do campo com a arquibancada, jogadores e torcedores lançaram mão de todo expediente possível para travar a partida, picar o jogo, fazer o relógio andar sem nada acontecer. O resultado foi o fim de um jejum de seis anos sem título e uma conquista comemorada de forma delirante pelo bando de loucos, inebriados pelo fato de a festa ter como coadjuvante o seu maior rival – o Palmeiras.
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Os próprios torcedores palmeirenses reconheceram isso nas redes sociais, exaltando o papel da torcida no andamento do final da partida.
Eis que agora então um comunicado oficial da PM tenta impedir que a história se repita, quando ela deveria ter sido evitada. A aplicação da regra criada há mais de uma década sempre falhou por negligência na revista dos torcedores, que levam para campo o que bem entendem. Ou por conivência dos clubes, acusados por facilitarem o acesso desses artefatos muito antes de se iniciarem a revista e a entrada dos torcedores nos estádios.
Kevin Espada, de 14 anos
Vale lembrar que o marco para a promessa de endurecimento das punições aconteceu depois de uma tragédia, justamente envolvendo a torcida do Corinthians, em Oruro, na Bolívia.
Na estreia do Timão na Libertadores de 2013, no empate em 1 a 1 com o San José, o adolescente boliviano Kevin Espada, de 14 anos, morreu ao ser atingido no olho direito por um sinalizador marítimo, disparado por um torcedor corintiano.
Desde então, muitas organizadas têm usado a fumaça como um símbolo de resistência ao que defendem ser direito do torcedor: fazer festa na arquibancada. As multas, quando aplicadas, são pagas pelos clubes. As punições, no entanto, são brandas e não têm o poder de impedir que a torcida se manifeste dessa maneira. Resta saber até que ponto a proibição da proibição vai surtir algum efeito.