Acabou – ou pelo menos foi adiado provisoriamente – o sonho de Ronaldo Nazário ser o futuro presidente da Confederação Brasileira de Futebol. Nem o Fenômeno, vejam só, nem ele, teve força suficiente para colocar de pé uma candidatura de oposição não ao atual presidente Ednaldo Rodrigues, mas, sim, ao sistema que impera no poder central do futebol nacional.
Seja um parceiro comercial do The Football
Mesmo com sua história, com sua fama, com seu prestígio, com seu network, com seus conhecimentos e com toda sua fortuna, Ronaldo viu-se obrigado a capitular, derrotado pelas forças instituídas há décadas na CBF. Forças essas que se interpõem como obstáculo à oxigenação de ideias e que, sistematicamente, criam muros a projetos que possam interferir no status quo vigente.

No modelo feudal em que a CBF está constituída, com um reino blindado por sub-reinos que hipotecam apoio em troca de vantagens no atacado e no varejo, oposições tendem a ser sufocadas no berço. Ronaldo e seu projeto de reestruturação do futebol pátrio foi o derrotado da vez.
Para ele, e para todos aqueles que se aventurarem a subjugar a força do comandante de plantão, o sistema manda avisar que essa é uma luta inglória.
Ronaldo se enganou
Ronaldo percebeu isso antes de um eventual fracasso nas urnas. Ao lançar-se pré-candidato, com o apoio de aliados muito fortes, imagina que seu nome pudesse surfar numa corrente favorável à instalação de um novo tempo na entidade.
Mas, para sua surpresa, ou decepção, o Fenômeno não conseguiu nem sequer ultrapassar a cláusula de barreira que lhe legitimaria a condição de candidato. Para tanto ele precisava ter o apoio formal de pelo menos 4 das 27 federações e de 4 clubes e nem isso foi obtido. Mesmo com a promessa de liderar um movimento que desse voz e espaço aos clubes e federações em prol de melhorias nas competições e desenvolvimento do esporte nos Estados.
Seu discurso não seduziu quem tem o poder do voto. No comunicado oficial de sua desistência, feito em suas redes sociais, Ronaldo revelou que no seu primeiro contato com os presidentes das 27 federações filiadas à CBF, “encontrei 23 portas fechadas”.

Isso mesmo, as federações nem sequer aceitaram receber o ex-jogador para uma conversa a fim de se inteirar de suas propostas. O argumento? Estão todos satisfeitos com a atual gestão e comprometidos com o apoio à reeleição de Ednaldo.
Sem abertura ao diálogo, Ronaldo percebeu que era hora de se recolher. Estrategicamente, seria um erro tentar levar a candidatura adiante. Uma derrota nas urnas poderia comprometer seus planos e arranhar sua imagem de um dirigente de valor.
A CBF precisava de Ronaldo
Numa avaliação honesta, precisamos reconhecer que a CBF precisaria mais de Ronaldo do que Ronaldo da CBF. Rico, empresário bem-sucedido, ídolo mundial, cidadão do mundo, celebridade, Ronaldo certamente não iria se locupletar dos esquemas viciados que movem os subterrâneos do poder do futebol brasileiro.
SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin
Threads
Tik Tok
Mas nem essa certeza de um trabalho idôneo, limpo, transparente, fez a cabeça dos dirigentes espalhados pelo Brasil. E é fácil compreender por que as coisas se dão assim. Há tempos, a CBF é uma confraria entre amigos, que se valem de trocas de favores e interesses imediatos, em que uma mão lava a outra.

O cargo de presidente é mera formalidade, desde que o poder esteja controlado pelo mesmo grupo de pessoas que se revezam no cargo, a despeito de se apresentarem sempre com uma fachada de mudança. Tudo enganação. Há décadas o poder só troca de mão, mas não troca de vocação.
Inegável que não dá para dizer que Ronaldo seria a garantia de uma mudança efetiva nos destinos e na gestão do futebol brasileiro. Vale lembrar que ele andou lado a lado com essa gente por muitos anos e nunca se rebelou contra ela. Esteja a serviço da seleção por anos, sempre alinhado às decisões que emanavam da CBF.
O exemplo de Platini
Andou de braços dados com Ricardo Teixeira, por exemplo, que é um dos símbolos da corrupção na entidade. Fora isso, o fato de ser ex-jogador não lhe dá um salvo-conduto para conduzir a entidade sem o risco de cometer falhas e desmandos.
Tomemos como exemplo apenas o histórico de Michel Platini, o Ronaldo do futebol francês – se me permitem a analogia. À frente da UEFA, Monsieur Platini se lambuzou no mar da corrupção e do dinheiro sujo do futebol e sujou, com as mãos, a trilha dourada que seus pés haviam traçado no mundo da bola.
Mesmo diante da incerteza das propostas de Ronaldo, e da malograda experiência com Platini, a ideia de permitir que um ex-jogador comande as principais entidades esportivas do futebol é uma ideia que deve ser preservada. E estimulada.
Com certeza, por mais dúvidas que o acesso deles ao poder possa despertar na gente, gente como Ronaldo veria o futebol com uma ótica completamente diversa desses senhores de terno, gravata e cartola.
Lamente-se, pois, que o projeto de Ronaldo tenha sido engolido pelos poderosos de plantão. Que a chama que o motivou a chegar até aqui não se apague. E que todas as correntes progressistas se unam para pavimentar o caminho de uma mudança, cada vez mais necessária, ainda que sempre adiada.