Para entender o que se passa no íntimo de uma pessoa, é preciso prestar atenção ao que ela diz. Suas ideias, pensamentos, convicções e opiniões sempre serão espelhos de sua origem, de sua formação e do seu caráter. Para Platão, figura central na história da Filosofia, “o ser humano é fundamentalmente a sua alma e quando estiver presa em um corpo ela estará mortificada. A concepção dualista retrata o corpo como lugar do sensível e a alma como lugar do inteligível”.

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Partindo desse pressuposto, vamos combinar que a alma de Alejandro Domínguez, o presidente da Conmebol, é responsável pelo que o seu corpo fala.

Mesmo aquelas falas ditas sem pensar, sem o propósito de ofender a alguém, das quais qualquer um pode se arrepender depois de ver o estrago que elas provocaram.

Alejandro Domínguez, presidente da Conmebol, pediu desculpas em notas nas redes sociais por fala racista / Instagram

Certamente, se questionado, num ambiente controlado e protocolar, o dirigente paraguaio jamais iria assumir que é racista. Se estiver num ambiente ligado ao futebol, vai dizer que sob sua presidência a Conmebol tem combatido o racismo com campanhas educativas e aplicação de sanções aos infratores.

É preciso ser antirracista

Este é o blábláblá padrão de dez entre dez cartolas colocados contra a parede num tema delicado como esse. Mas, suas recentes condutas e falas não deixam dúvidas de que o dirigente máximo do futebol sul-americano, batizado com nome de príncipe (Alejandro Guillermo Domínguez Wilson–Smith) em nada se parece com um fervoroso defensor das lutas antirracistas.

Lembrando que não basta não ser racista, é preciso ser antirracista. Praticante, de preferência.

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Pois eis que dias após a Conmebol ter imposto um castigo frouxo para o clube Cerro Porteño, cuja torcida fez gestos de macaco em direção a jovens jogadores do Palmeiras numa partida da Libertadores Sub-20, señor Alejandro Domínguez deu mais uma derrapada.

Ao ser questionado sobre os efeitos de um boicote dos times brasileiros aos torneios sul-americanos, por conta dos atos racistas, o cartola tirou do fundo poço do seu racismo cultural – aquele que muitas vezes não é percebido – uma frase lapidar, que vai entrar para o memorial das injúrias e dos preconceitos.

Alejandro Domínguez, em seu discurso durante o sorteios dos grupos da Libertadores, disse combater o racismo / Instagram

“Libertadores sem o Brasil é como o Tarzan sem a Chita!”, decretou o nobre dirigente. Para quem ainda não ligou os nomes aos fatos, Tarzan era um antigo personagem das séries de TV e do cinema americano, conhecido como o Rei das Selvas. Um homem branco, musculoso, destemido, amigo dos leões e que lutava contra os mais fracos da floresta pulando de galho em galho preso a um cipó voador, anunciando sua presença com um grito meio humano-meio animal.

Chita (Cheeta, no original em inglês) era sua companheira de aventuras. No caso, uma macaca – ou melhor, um macaco, a despeito da rotulagem de gênero feminino. (Aqui vale até um parênteses: imaginem quando dom Alejandro souber que a Chita do Tarzan não era fêmea, e sim um chimpanzé macho adestrado para os filmes produzidos em Hollywood nos anos 1930 e 40).

Ao perceber o tamanho da bobagem de sua fala, e medir a reação mais do que justa dos brasileiros que se sentiram ofendidos pela comparação infeliz, mister Alejandro tentou tapar o sol com a peneira.

Como todos eles fazem em situações desse tipo, soltou uma nota em suas redes sociais se desculpando e argumentando que não teve intenção de ofender ninguém com o uso da metáfora.

O pedido de desculpas

A nota é um rosário de platitudes. “A expressão que utilizei é uma frase popular e jamais tive intenção de menosprezar nem desqualificar ninguém. Sempre promovi o respeito e a inclusão no futebol e na sociedade, valores fundamentais para a Conmebol. Reafirmo meu compromisso de seguir trabalhando por um futebol mais justo, unido e livre de discriminação”.

Ao invés da nota reparadora, todos aqueles que pedem o fim de políticas discriminatórias, no futebol ou em qualquer atividade humana, certamente ficariam mais reconfortados, e crentes nas suas promessas, se o cartola tivesse imposto penas mais rigorosas para todos os casos de racismo ocorridos sob sua gestão na Conmebol.

Tarzan e Chita, seriado de TV e depois filme americano dos anos de 1930 e 1940 / Reprodução

O palmeirense Luighi não foi o primeiro ofendido, e certamente não terá sido o último. A Conmebol faz vista grossa aos atos, finge que pune com rigor, mas não mexe com os clubes naquilo que lhes é mais caro: a perda de pontos e suspensões. Multa não resolve nada, só engorda ainda mais o caixa da entidade.

O dirigente perdeu uma grande oportunidade de virar o jogo em favor daquilo que ele diz acreditar e defender. Como também ficaram em débito com o reparo histórico que há tempos se faz necessário os dirigentes de clubes e entidades futebolísticas do Brasil.

Hora de um basta de verdade

Era a hora de um ato de coragem, de uma medida drástica, de um basta. Mas, com raras exceções, nossos dirigentes demonstraram uma indignação momentânea, aqui e acolá, mas todos seguem rezando na cartilha da Conmebol, sem disposição para uma ruptura.

Não será surpresa se muitos deles argumentarem que tudo foi apenas uma brincadeira, uma forma doce e suave de realçar a importância dos clubes brasileiros para os torneios sul-americanos. Azar das nossas vítimas. E sorte da Chita, que sempre teve um Tarzan para defendê-la de todas as ameaças e injustiças do Planeta dos Homens.

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